O recente episódio envolvendo a ministra Marina Silva, alvo de ofensas em uma audiência pública no Senado, expôs de forma crua um problema profundo e persistente em nossa sociedade: a violência política de gênero. Mas também revelou algo ainda mais alarmante: o quanto esse tipo de agressão já se tornou socialmente aceitável em meio a uma sociedade profundamente polarizada.
A cena, transmitida ao vivo, se deu em um espaço de poder, com câmeras ligadas, microfones abertos e ampla visibilidade. Ainda assim, os agressores não demonstraram qualquer hesitação.
Quando a polarização política ocupa todo o espaço do debate público, a gravidade de episódios como esse é relativizada. A ministra deixa de ser uma mulher desrespeitada diante do país, e passa a ser apenas "alguém do outro lado". E assim, o que deveria nos indignar como sociedade é minimizado.
Mas a equidade de gênero não é uma bandeira de esquerda ou de direita. É uma pauta de humanidade.
A participação plena e equitativa de mulheres em todos os níveis da sociedade é fundamental para reintroduzir e fortalecer as qualidades essenciais para a construção da paz. Isso permite que novas perspectivas sejam consideradas, que a diversidade de experiências seja valorizada e que a compaixão e a solidariedade se tornem pilares das relações humanas.
A equidade de gênero exige o comprometimento de todos nós. Vai além de criar leis ou ocupar cargos. Trata-se de transformar uma cultura.
Que este episódio não se torne mais um, engolido pela agenda do dia seguinte. Sem respeito, sem escuta e sem equidade, não há progresso que se sustente. E não há humanidade que resista.
Elana Sousa
Fundadora da Équité. Ex-CFO, MBA IESE. Mentora de liderança feminina consciente há mais de 17 anos de trajetória executiva.